"Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim." (Chico Xavier)

quarta-feira, 1 de julho de 2009

.Reencontro. Final.


Então, algum tempo depois ela conseguiu abrir seus olhos. Estava em um lugar escuro, que ela bem conhecia. Os enfeites que rodeavam a sala eram os de sempre: fotos de amigos, de seus pais, até do estimação que ela tinha a seis anos.

As janelas da cozinha rangiam enfeitando a casa vazia com o barulho que ela ouvira durante aquele final de sono. Do lado de fora se podia ouvir o som da mais forte tempestade durante aquele final de tarde congelante. No resto da casa não havia mais nada, o animal se colocava quieto abaixo da cama do quarto e as gotas se derretiam na janela atrás das cortinas acobreadas. Ela então sentiu suas pernas balançarem de acordo com os sons dos trovões do lado de fora da e um frio tomou conta de toda sua espinha ereta. Durante alguns minutos ela ficou ali, parada, sentada na cama do quarto e se olhando ao espelho. Imaginava todas as cenas que havia passado pela sua cabeça naquele sonho maluco, tão maluco quanto outros que ela tivera em outros sonos assim como aquele. O relógio apontava 19h: 30mn e ela estava paralisada pelo efeito daquele que era o seu desejo maior, tê-lo perto dela pelo menos por mais uma vez. Enquanto pensava nisso, ela se via entregue ao mesmo sentimento que o consumia em seus ocultos pensamentos, uma vontade absoluta e descontrolável de molhar o rosto afoito e já inchado do recente despertar. Instantes depois o animal saiu de sua quietude e se colocou a grunhar diante dos corredores da casa, até chegar diante da porta. Ela assustada então, desceu as escadas lentamente, nem sequer se pôs a acender as luzes, queria que a escuridão lhe fizesse companhia naquele momento.

Em movimentos retos e singulares de seus quadris, ela cruzava a sala lentamente até chegar à porta feita da mesma madeira morta que seu sonho revelava. Enquanto dirigia sua mão direita até a fechadura, outro frio na espinha lhe consumia enquanto os trovões ainda se anunciavam do lado de fora como nunca havia ocorrido anteriormente. Com os pés descalços em cima do tapete azul-celeste e vestida com a camisa de seu time favorito, ela virava a fechadura tão lentamente que parecia que esperava alguma surpresa por detrás daquele portal. Fechou os olhos e em uma só jogada abriu a porta revelando o grande vazio diante dela que era desfeito pelas escadas do prédio, depois de pouco menos de um metro de distância.

Não havia nada. Apenas a chuva corria pelos corredores. De passos em passos então ela começou a se aventurar por aqueles corredores, procurando algo que ela sabia que estava lá, escondido em algum lugar. Parecia que seguia rastros de algum fantasma que estava a rondando por ali, mas não havia nada. Resolveu então voltar para casa e se refugiar novamente em seu casulo.

Diante da escuridão dos corredores ela ia, com passos pequenos, completamente desolada por achar que ele ainda estava ali. Andava de cabeça abaixa olhando seus próprios pés se molharem e seus cabelos pingarem com a água que lhe cobria o corpo, até que chegou ao corredor 3D, onde ao final do mesmo, se encontrava sua caverna pessoal. Fechou seus olhos e continuou seguindo de cabeça abaixa.

Em frente à porta o animal ainda se encontrava ali, mas desta vez mais manso, sentado e confortado. Sem se importar com sua pele encharcada, ela adentrou a casa e se dirigiu diretamente até seu quarto onde poderia ficar em paz, a mesma paz que desejava ter a tanto tempo e que não conseguia alcançar.

Sua mente estava tão vazia que nem percebera que sua casa havia sido invadida. Não percebera as marcas nas fotos, as pegadas que enfeitavam o tapete da sala e muito menos as que cobriam o chão das escadas e dos corredores internos com a mesma água que a cobria. Enquanto passeava pelo corredor até a porta do quarto, também não percebera que nas paredes haviam marcas de dedos e que a luz do quarto estava acesa.

Já em prantos, ao chegar à porta do quarto percebeu que algo havia de errado, sim, ela sabia. Mesmo com toda a água que o cobria podia sentir o perfume de seu amado a metros de distância, e ele estava ali. Sim estava.

Em três mínimos passos adentrou o quarto e lá estava a companhia que ela sempre esperava durante esses 11 meses. Com seus cabelos ensopados, uma camisa preta estampada, calças jeans como ele sempre usava, e um tênis que nunca seria da moda ele estava ali, com seu corpo e olhos respingando esperando o que ela sempre temeu fazer. Em segundos correu de encontro ao corpo que o frio da chuva havia transformado em gelo e aos poucos o calor de seus corações que batiam em ritmo acelerado foi esquentando seus corpos.

O relógio marcava já 20h00, e o animal estava ali, apenas observando a cena no canto esquerdo da porta. A janela não mais declarava os clarões dos trovões e muito menos despejava as lágrimas da chuva diante do vidro. Tudo estava quieto. A luz ainda acesa do quarto dava o enfeite e resplandecia a imagem do encontro dos dois naquele espelho grande e ralo. Seus seios iam de encontro ao tórax dele e seus braços em volta de suas costas e vice versa. Os corações ainda batiam e os corpos e cabelos ainda pingavam formando uma poça de chuva parada envolta dos dois corpos grudados. 20h 32m. Aquela noite seria longa, mais longa do que qualquer dia que passasse pelas vidas daquelas duas pessoas. Elas enfim seriam entregues ao seus mútuos e vantajosos desejos. Sem precisar hesitar, nem falar. Eles apenas viveriam.




2 comentários:

Helô Müller disse...

Que lindo texto! Parabéns por ele e pelo belo Blog !!
Tb estou na tua cola...
Bjus
Helô

Äмbзr Gïrℓ ⅞ disse...

opa, mas que grand finale...

amei. é simplesmente envolvente essa narração.

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